sábado, 13 de dezembro de 2008

10

Vivemos pra alimentar esse vampiro
Pra garantir que seus crimes nunca sejam punidos
Pra assegurar a felicidade de nossos estupradores

Vivemos para circular
e para manter a circulação
Pra nutrir a engenharia surda

Vivemos para o desejo de viver mais
Pelo desejo de conforto
pra anestesiar nossas engrenagens

Vivemos para assistir a decomposição
de nossos filhos, casa e caráter

Vivemos?

Pois que eu diga que sim
Que sangraremos o vampiro
pendurado em um galho, com um corte no pescoço
Que perfuraremos o estuprador
em cada ponto que nos possa entreter
Que fecharemos cada vaso da cidade
pra conhecer a beleza da gangrena
Que celebraremos o desconforto
de cada passante, pedante e passivo

Daí então, sabendo que a dor do amortecimento é pior do que a da ferida
,
viveremos

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

9

Essas horas vêm
Essas horas vão
Mas não parecem ir
Parecem ficar a mastigar meus ombros

Não tenho hora pra dormir
Não durmo mais
Não tenho dia seguinte

E as horas seguem...

sábado, 15 de novembro de 2008

An Essay on Man

...
Look round our world; behold the chain of love
Combining all below and all above
See plastic Nature working to this end,
the single atoms each to another tend,
attract, attracted to, the next in place
formed and impelled its neighbour to embrace.

See matter next, with various life endued,
press to one centre still, the general good.
See dying vegetables life sustain,
see life dissolving vegetate again:
All forms that perish other forms supply
(By turns we catch the vital breath, and die),
Like bubbles on the sea of matter borne,
they rise, they break, and to that sea return.

Nothing is foreign: parts relate to whole;
one all-extending, all-preserving soul
connects each being, greatest with least.
Made beast in aid of man, and man of beast;
all served, all serving: nothing stands alone;
the chain holds on, and where it ends, unknown.
...

(Alexander Pope)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

8

O que eu preciso eu não quero
O que eu quero eu não devo
E a dívida...
A dívida é tentadora

Eu quero sangrar até afogar cada uma das testemunhas da minha vida

Mas de onde vieram estes escrúpulos?
de não machucar e sentir culpa
E eu sei que não vim pra te acariciar o ego

Mas, e agora?
Por que é que você veio?

Pra botar açúcar nas feridas?
Pra costurar nervos arrebentados?
Ou apenas pra me dar mais uma chance de arrependimento?

Eu não quero presentes
Não entendo esses ressentimentos
Essa flexibilidade tão conveniente
Não vendo mais meus pecados em troca de atenção
Agora, meu tédio se reveza com minha afeição
E eu tenho certeza de que não te busquei
Então, por que é que você veio?

sábado, 8 de novembro de 2008

A Vã-guarda

Marionetes do tédio
Do ‘márquetim’ estéril
De nossas próprias deformidades

Erguem velhos impérios
Igrejas, templos e monastérios
Coretos de perversidades

Degolam o rei
Enforcam o padre
Superlotam cemitérios

Criam nova Coroa
Novas leis
Novas regras de civilidades

Entoam novos hinos
A novas bandeiras, prestam homenagem

E recitam velhos impropérios
E celebram seus egos enaltecidos
E se congratulam mutuamente

Até se desfazerem
Convencidos do fim do conformismo
Convencidos da missão cumprida

Tementes pois sabem
..................................................................
Que toda a raiva do universo espera

Bom dia mundo cruel (666)

Pra cada jovenzinho uma jaula
Uma fala escrita e calculada
Uma mentira bem desenhada
(e tão cara)

Bom dia mundo cruel

A classe média é o abismo
É o espelho que te consome
É a faca cega da cidade
É a própria razão de ser

Bom dia mundo cruel

Que eu seja o hino da derrota
Que eu cante a tua queda
Que queimem tua casa
Que quebrem tuas pernas

Que levem teus brinquedos
Que cuspam em tua riqueza
Que chupem teus dedos

Que te peguem pela mão
E te mostrem tua vida

5

Hipocrisia angustiada
Arrogância velada
Tanto esforço pra relaxar

Mente pro teu ódio
Pra enforcar um pouco dessa fome
Mente pro teu ego
Pra sorrir com um pouco de honestidade
Você é um livro aberto
Um manual de jogo de xadrez
Cheio de sinceridade e segundas intenções

Eu transpareço meu oposto

Como nós, e todas essas outras coisas que já nascem mortas

4

Mas o que eu mais queria ser é essa tua falsa imagem de mim

E o meu vício é agradar
É a simpatia canina que carrego nas costas
É a esperança na aposta, nas sobras das outras
É um risco calculado, sem graça e sem gozo

Então marchemos até a culpa
Marquemos mais uma luta

A segurança está em qualquer lugar mas não no coração
Se não cá estamos, na pior ilusão

É o óbvio que me desafia
Não há ninguém como você
Mas todos os homens sempre chegam atrasados

E a jura é sempre um exagero

E eu me encontro de novo te pedindo colo

3

E o céu será todo redenção
E se abrirá em azul febril
Mas nos escapará aos olhos

E te encantaste por meu medo mais feroz
Vai-te, não me pertences mais
Sobe a teus céus, pois teus pés já os fazem sucumbir
Carrega cada um que jaz em teu caminho
Eu me apago, me entrego a tua vontade e meu infinito desprazer
Deixas para trás um velho amigo,
Maior amante, grave, austero e ferido
Nas rugas que tu pediste

Vai, torna-te então o que és
Suga-me até a última gota
E em tua nova cama e casa purifica-me
somente ao desfazer-te de mim

Sublimo-me em ti
Sublima-te em mim
Pois que nosso sangue cessa suas rotas de comunhão

És gota, és vinho, és deusa
Eu, não escravo, não rei,
Servo
Em teus dedos, em teu ar
Amo-te, mas somente agora
Dancemos em pares, pois quero dançar sozinho

2

Pra cada unha quebrada um desejo antigo
Uma pequena cicatriz
Um lamento rasgado, fingido,
Quase um elogio
Cada junta dolorida na alegria da certeza de que te perdi
Mas ainda me faltam tuas pernas

...............ainda me faltam tuas pernas

Celebra essa vida
Revive essa morte
Te entrega à tua sina
Assassina tua sorte

Hoje a lua não quer subir

1

eu deixei
passos demais para trás
derrubei
meus filhos no poço errado
eu comprei
colares pra te enforcar

eu queimei
teu sorriso de papel
te enterrei
na cova da tua voz
ofertei
teus olhos aos urubus

eu testemunhei
cada queda, tropeço e mentira
eu te afoguei
no teu medo, verdade e covardia

eu gritei
tua vergonha no meio da rua
eu fingi
perdoar tua morte